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Por que história fora do Brasil?
14 de jun. de 2026

Por que história fora do Brasil?

Síndrome de vira-lata, eu?

Tolstoi uma vez disse: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. O que, para mim, significa: se queres impactar o mundo, começa contando sobre o que te rodeia — a tua cultura, os teus costumes, aquilo que observas de perto, aquilo que é realidade para ti. Presume-se, assim, que a tua voz enquanto narrador será mais autêntica, mais verídica. Não duvido.

Pois bem, então por que diabos fui inventar de escrever uma história que se passa longe da minha terra, e numa época ainda mais distante da minha? Esta foi uma pergunta que ouvi algumas vezes. Se não direta, posta de forma subjetiva, disfarçada por outras palavras ou mesmo na pura intenção — aquilo que não se diz com palavras, mas se deixa no ar... Passei por esse questionamento em vários momentos durante esses cinco anos de escrita (talvez menos do que gostaria, já que escrever atualmente, e escrever no Brasil, onde ler é a exceção, é antes de mais nada um ato solitário, para o bem e para o mal).

Não é exatamente uma necessidade de me explicar, mas gosto de contar esta história: Um Conto Sobre a Violência não nasceu destinado a virar um livro publicado. Aí já está o primeiro indício.

Em 2020, em plena pandemia, eu fazia terapia e, entre as sessões, a minha terapeuta me falou sobre a escritoterapia. Normalmente, o exercício consiste em escrever uma espécie de diário ou relatar os próprios traumas, mas não há regra. No meu caso, o que ela sugeriu foi algo diferente. Como vínhamos identificando que eu sentia uma enorme capacidade criativa que não conseguia explorar no meu trabalho ou no dia a dia, a ideia foi a seguinte: "E se tu escreveres uma história? Qualquer história. Tu não precisas lê-la para mim nem para ninguém, ela será só tua..."

Este foi o primeiro gatilho.

O segundo veio do fato de que eu, por puro hobby, detenho muito conhecimento sobre a máfia ítalo-americana. E aqui, talvez, o conceito de "aldeia global" de Marshall McLuhan se faça valer. Então, sem a pretensão de que qualquer texto nascido desse exercício virasse um livro publicado, e aproveitando a bagagem que eu já tinha, numa noite nasceu o que hoje é o terceiro capítulo do livro.

Ou seja, não havia intenção, não havia propósito... Isso surgiu depois (e um dia falo sobre isso).

Mas, se tu estás no time dos que não precisavam desta explicação, saiba que eu estou contigo. No fim das contas, e com todo o respeito a Tolstoi, o que importa mesmo é contar uma boa história. Afinal, o que o autor cria é sempre um simulacro, uma realidade redesenhada, redefinida pela sua própria vontade. Se o meu simulacro contido em Um Conto Sobre a Violência é bom para o leitor, se o convence e o satisfaz enquanto história, então Tolstoi que me desculpe.

Cadernos do Autor · R. C. Cardoso